A prevenção, a intervenção precoce e a integração da saúde intestinal no acompanhamento das pessoas com obesidade estiveram em destaque na sessão «Prioridades para o futuro», da segunda edição dos Encontros Clínicos da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), que se realizou no dia 22 de outubro, no Hospital da Luz Learning Health. Apresentada por Dina Carvalho, diretora clínica do Hospital Terra Quente, a sessão contou com a intervenção de Conceição Calhau, professora e investigadora da NOVA Medical School, que defendeu uma abordagem mais personalizada e uma colaboração mais próxima entre médicos e nutricionistas.
«Comer menos não significa comer melhor» e «perder peso não significa ganhar saúde» foram duas das ideias sublinhadas pela oradora, que alertou para a necessidade de avaliar os resultados do tratamento para além da redução do peso. Preservar a massa muscular, a capacidade funcional e um estado nutricional adequado deve integrar os objetivos da intervenção, incluindo quando são utilizadas terapêuticas farmacológicas.
Neste contexto, Conceição Calhau destacou o papel dos nutricionistas na monitorização dos doentes, na adequação da alimentação e na prevenção de carências nutricionais. Defendeu também o reforço do ensino da nutrição nas escolas médicas, dotando os futuros profissionais de ferramentas para uma intervenção mais integrada.
A prevenção foi outro dos eixos centrais da apresentação. Para a investigadora, é necessário compreender e atuar sobre os fatores que favorecem o desenvolvimento da obesidade, incluindo as condições de acesso a uma alimentação adequada. A título de exemplo, referiu as diferenças de preço entre opções alimentares disponíveis em espaços hospitalares, salientando a importância de criar ambientes que facilitem escolhas saudáveis.
A saúde intestinal como dimensão da personalização
Grande parte da intervenção foi dedicada à microbiota intestinal e às suas relações com o metabolismo, a inflamação e a regulação do apetite. Conceição Calhau apresentou investigação sobre a participação dos microrganismos intestinais na produção de metabolitos, nomeadamente ácidos gordos de cadeia curta, e a sua ligação a mecanismos envolvidos na saciedade e na saúde metabólica.
A oradora destacou, em particular, as relações entre alimentação, diversidade da microbiota e produção endógena de GLP-1, defendendo que a saúde intestinal merece maior atenção nas consultas de medicina e de nutrição. Apontou também esta área como uma linha de investigação relevante para compreender diferenças na resposta aos tratamentos e explorar possíveis intervenções complementares.
Neste âmbito, valorizou o padrão alimentar mediterrânico, a ingestão de fibra e a presença de alimentos de origem vegetal na alimentação. Sublinhou ainda a importância de cuidar da microbiota ao longo da vida, com atenção aos primeiros mil dias, enquanto período relevante para a saúde futura.
A personalização dos cuidados deverá igualmente passar, segundo Conceição Calhau, por uma melhor estratificação dos doentes e pela monitorização da evolução clínica e metabólica. As ferramentas digitais podem apoiar esse acompanhamento, desde que os dados recolhidos sejam interpretados por profissionais de saúde e traduzidos em decisões úteis para cada pessoa.
No debate, Dina Carvalho questionou a oradora sobre a utilidade clínica dos testes de microbiota e os critérios para recomendar probióticos. Conceição Calhau distinguiu a sequenciação dos microrganismos da interpretação clínica dos resultados e salientou que a avaliação dos probióticos deve considerar a estirpe, a finalidade e os ensaios clínicos disponíveis, evitando generalizações.
A sessão deixou como orientação central a necessidade de aproximar prevenção e tratamento, articulando inovação farmacológica, acompanhamento nutricional e conhecimento sobre a saúde intestinal. Para Conceição Calhau, o futuro exige cuidados mais contínuos e coordenados, capazes de responder às características de cada doente e de avaliar os ganhos em saúde para além do peso perdido.