



Mesa 1 | “Value-based Healthcare”
Presidente | Eduardo Mendes
Moderadores | José Vila Nova • Rui Maio
Palestrantes | Marisa Silva • Mafalda Teixeira • Maria João Sales Luís • Hans Martens
O primeiro painel do 1.º Fórum Clínico promovido pelo Conselho Clínico da APHP, realizado em Leiria, a 17 de outubro de 2025, centrou-se na evolução dos modelos de Value-Based Healthcare (VBHC) e no modo como a medição de resultados clínicos e a utilização inteligente de dados podem contribuir para sistemas de saúde mais sustentáveis e centrados no doente.
A abertura da mesa foi da responsabilidade de Marisa Silva, responsável pela área de VBHC do grupo CUF Saúde, que apresentou a experiência desta rede hospitalar na implementação de modelos baseados em valor. O processo teve início em 2015, com a primeira patologia monitorizada, e encontra-se atualmente em curso em dez hospitais, envolvendo mais de 70 equipas clínicas. No total, já foram acompanhados mais de 18.500 doentes e recolhidos cerca de 36 mil PROMs (Patient-Reported Outcome Measures). A medição de resultados segue padrões internacionais, nomeadamente os desenvolvidos pelo International Consortium for Health Outcomes Measurement (ICHOM), incluindo instrumentos como EQ-5D, KOOS e HOOS. Como exemplo de impacto clínico, destacou a área da osteoartrite, onde 72% dos doentes reportaram melhoria na qualidade de vida um ano após o tratamento. A responsável sublinhou ainda a transição para plataformas digitais de recolha de dados e a integração da organização em redes internacionais de investigação e dados em saúde, como o European Health Data & Evidence Network (EHDEN). O trabalho desenvolvido foi reconhecido internacionalmente, tendo a CUF sido distinguida nos Prémios Europeus de Hospitais Privados.
Seguiu-se a intervenção de Mafalda Teixeira, da Luz Saúde, que enquadrou o debate no contexto da sustentabilidade dos sistemas de saúde. Recordou que os gastos com saúde crescem mais rapidamente do que o PIB e os salários, tendência agravada pelo envelhecimento da população e pela maior prevalência de doenças crónicas. Neste cenário, defendeu que o conceito de valor – entendido como os resultados que realmente importam para os doentes em relação aos custos necessários para os alcançar – é essencial para alinhar incentivos e melhorar a eficiência. A responsável apresentou várias iniciativas em curso na rede Luz Saúde, desde a padronização de protocolos clínicos ao reforço das equipas multidisciplinares, com passagem pela recolha sistemática de PROMs e PREMs através de ferramentas digitais como a aplicação VES. Programas como o ERAS têm permitido reduzir o tempo de internamento, diminuir complicações e otimizar custos, demonstrando que maior qualidade clínica tende a gerar também maior eficiência. Entre os próximos passos, destacou a transição progressiva para modelos de pagamento baseados em valor, incluindo pacotes de cuidados, capitação e compras alinhadas com resultados.
A terceira intervenção esteve a cargo de Maria João Sales Luís, da Multicare, que apresentou a perspetiva das seguradoras de saúde. A responsável destacou a experiência da Multicare no desenvolvimento de estratégias destinadas a reduzir a taxa de cesarianas, promovendo a adoção de boas práticas clínicas. O objetivo passa por incentivar modelos de financiamento que valorizem resultados em saúde e a adoção de práticas médicas baseadas em evidência. Nesse contexto, sublinhou a importância do envolvimento ativo dos prestadores de cuidados na recolha e monitorização de outcomes clínicos, essenciais para orientar políticas de financiamento mais eficientes.
A sessão terminou com a intervenção de Hans Martens, do European Policy Centre, que apresentou uma análise da evolução das políticas de saúde na Europa. O especialista destacou os desafios comuns enfrentados pelos sistemas europeus, desde a pressão demográfica e financeira até à necessidade de reformular modelos de financiamento. Neste contexto, apontou os modelos baseados em valor como uma das vias mais promissoras para melhorar simultaneamente os resultados clínicos, a transparência e a sustentabilidade do sistema.
A primeira mesa do Fórum Clínico evidenciou, assim, um consenso crescente entre profissionais de diferentes áreas: a medição sistemática de resultados clínicos e a organização dos cuidados em torno do valor gerado para o doente são elementos centrais para o futuro da saúde.
Síntese das ideias principais
- Organização dos cuidados centrada no valor como pilar do futuro da saúde.
- Centralidade dos resultados que importam para o doente face aos custos.
- VBHC – caminho para maior sustentabilidade e eficiência dos sistemas de saúde.
- Programas como ERAS reduzem internamentos, complicações e custos.
- Transição para modelos de pagamento baseados em valor (capitação, bundled payments).
- Necessidade de envolvimento dos prestadores na medição de outcomes.