A inovação farmacológica, a intervenção nutricional, a endoscopia e a cirurgia devem integrar um percurso personalizado, orientado para ganhos duradouros em saúde. Esta foi a mensagem central da sessão «O tratamento da obesidade em 2026», da segunda edição dos Encontros Clínicos da APHP, moderada por José Vila Nova, vice-presidente do grupo Trofa Saúde, e Rui Pinto, diretor clínico do Hospital Santa Maria Porto. O evento realizou-se no dia 22 de outubro, no Hospital da Luz Learning Health.
O tratamento da obesidade dispõe de novas possibilidades, mas a sua eficácia depende da escolha da intervenção adequada a cada pessoa, da articulação entre especialidades e da continuidade dos cuidados. Na sessão dedicada ao tema, os especialistas defenderam uma abordagem que ultrapasse a perda de peso e valorize a redução das doenças associadas, a preservação da capacidade funcional e a melhoria da qualidade de vida.
Na abertura, José Vila Nova destacou a evolução das opções terapêuticas e a necessidade de as integrar num percurso assistencial coerente. A questão, sublinhou, passa por compreender como se articulam medicamentos, nutrição, procedimentos endoscópicos e cirurgia ao longo do tempo, atendendo às características e necessidades de cada doente.
Maria Margarida Andrade, médica internista do Trofa Saúde e coordenadora de uma equipa multidisciplinar, apresentou os avanços da terapêutica farmacológica, com particular destaque para o semaglutido e a tirzepatida. A especialista salientou que os benefícios destas opções vão além da redução ponderal, abrangendo, consoante o medicamento e a evidência disponível, diferentes complicações cardiometabólicas e outras doenças associadas à obesidade.
A escolha do tratamento deve, por isso, considerar as comorbilidades e os objetivos individuais, integrando desde cedo o contributo das várias especialidades. A manutenção dos resultados foi identificada como um dos principais desafios: a recuperação de peso após a suspensão da medicação obriga a planear estratégias de acompanhamento prolongado e a esclarecer os doentes sobre a natureza crónica da doença.
A perspetiva nutricional foi apresentada por Catarina Sousa Guerreiro, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que chamou a atenção para os desafios decorrentes da diminuição acentuada do apetite. Garantir uma ingestão adequada de energia, proteína e micronutrientes, preservar a massa muscular e acompanhar os sintomas gastrointestinais são dimensões essenciais da intervenção.
«Reduzir a vontade de comer […] não significa […] que eles aprenderam a alimentar-se», advertiu. Para a nutricionista, a maior eficácia dos medicamentos abre uma oportunidade para trabalhar a qualidade alimentar, a relação com a comida e a aquisição de competências que contribuam para a sustentabilidade dos resultados. A avaliação deve, assim, contemplar a composição corporal, a força e a função, para além do peso.
Miguel Alves Afonso, gastroenterologista dos SAMS e diretor clínico da Gastroclinic de Lisboa, abordou o contributo da endoscopia bariátrica, nomeadamente através do balão intragástrico, da gastroplastia endoscópica e de intervenções de revisão após cirurgia. Estas técnicas foram apresentadas como opções que podem integrar estratégias combinadas, ajustadas à situação clínica e à resposta aos tratamentos anteriores.
O especialista destacou também a necessidade de aprofundar a evidência sobre o papel da endoscopia após a suspensão dos novos fármacos e de melhorar o acesso a estes procedimentos. No debate, alertou para a importância de informar os doentes sobre os efeitos adversos e de evitar que o tratamento se limite à prescrição de um medicamento, sem acompanhamento estruturado.
António Albuquerque, cirurgião do Hospital da Cruz Vermelha e da Unidade Local de Saúde de São José, defendeu que a cirurgia bariátrica e metabólica deve ser considerada no momento adequado, em função da gravidade da doença, do risco, dos benefícios esperados e das preferências da pessoa. Na sua perspetiva, a inovação farmacológica reforça as possibilidades de combinação terapêutica e não elimina o papel da cirurgia.
O cirurgião salientou ainda que a recuperação ponderal não deve ser interpretada como falta de vontade do doente. Sendo a obesidade uma doença crónica e recidivante, o tratamento exige continuidade, incluindo após uma intervenção cirúrgica, com acompanhamento nutricional, psicológico e clínico.
A adesão terapêutica, os custos e a equidade no acesso atravessaram a discussão. Os intervenientes identificaram o encargo financeiro e os efeitos adversos como obstáculos à continuidade da medicação, defendendo que estas questões sejam abordadas desde a primeira avaliação.
No encerramento, Rui Pinto sintetizou a conclusão da mesa: existem tratamentos eficazes, mas é necessário personalizá-los, organizar percursos assistenciais e assegurar equipas multidisciplinares e acesso aos cuidados. O sucesso deve ser avaliado ao longo do tempo, pelos ganhos em saúde, autonomia e qualidade de vida.