CONSELHO CLÍNICO
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Obesidade precisa de financiamento orientado para resultados

A organização de equipas multidisciplinares, a continuidade do acompanhamento e a sustentabilidade do financiamento marcaram, no dia 22 de outubro, no Hospital da Luz Learning Health, a mesa-redonda «Perspetiva da gestão em saúde», da segunda edição dos Encontros Clínicos da APHP, dedicada à obesidade. O painel foi moderado por Leopoldo Matos, presidente do conselho consultivo da Lusíadas Saúde, e Paulo Sousa, diretor clínico do Hospital CUF Faro.

Tratar a obesidade como uma doença crónica exige uma resposta que ultrapasse a consulta, a prescrição ou a intervenção cirúrgica. Esta foi uma das principais mensagens da sessão, que reuniu perspetivas da gestão hospitalar, da prática clínica e da avaliação económica para discutir como melhorar o acesso e assegurar o acompanhamento dos doentes ao longo da vida.

Na abertura, Leopoldo Matos salientou a necessidade de investir na saúde e de criar condições de organização e financiamento que permitam intervir sobre a obesidade e as suas doenças associadas, com benefícios para os doentes e para a sustentabilidade do sistema de saúde.

Ana Filipa Soeiro, responsável pelas unidades CUF Tejo, CUF Miraflores e CUF Belém, apresentou a experiência da Unidade Multidisciplinar Integrada de Obesidade e Cirurgia Metabólica do Hospital CUF Tejo. A gestora descreveu a passagem de uma organização centrada em especialidades que funcionavam separadamente para um modelo de discussão conjunta, com percursos assistenciais definidos, protocolos clínicos, secretariado dedicado e um enfermeiro coordenador de cuidados.

A continuidade do acompanhamento foi apontada como um elemento decisivo para evitar o abandono e preservar os resultados alcançados. Segundo referiu, cerca de 80% dos doentes tratados no hospital mantinham acompanhamento. Defendeu também que a integração deve estender-se para além das unidades hospitalares, envolvendo os médicos de família e a medicina do trabalho.

Na perspetiva da gestão, Ana Filipa Soeiro propôs uma evolução do financiamento por episódio para modelos orientados para o valor, apoiados no conhecimento dos resultados clínicos, dos custos e do risco. Sublinhou ainda que a organização de equipas dedicadas permite melhorar a experiência do doente, reforçar a diferenciação clínica e otimizar recursos.

A intervenção de Carlos Belo, endocrinologista do Hospital da Luz Lisboa, incidiu nos desafios colocados pela crescente procura de tratamento e pela fragmentação dos cuidados. O especialista salientou que a inovação farmacológica alargou as possibilidades terapêuticas, mas reforçou que o tratamento exige uma abordagem integrada, com nutrição, psicologia e exercício físico, além do acompanhamento médico.

 

Defendeu, por isso, a estratificação dos doentes em função da gravidade clínica, a definição de critérios de referenciação e uma maior articulação entre os cuidados de saúde primários e os centros diferenciados. A avaliação dos resultados, acrescentou, deve incluir não apenas a perda de peso, mas também o controlo das comorbilidades, a qualidade de vida, a funcionalidade, o acesso e a manutenção do acompanhamento. No debate, recordou ainda que os tratamentos farmacológicos e a cirurgia metabólica constituem opções complementares, cuja utilização deve ser ajustada a cada doente.

João Coimbra, gastroenterologista da Lusíadas Saúde, apresentou o modelo dos Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), destacando a autonomia, a responsabilização das equipas e a avaliação do desempenho como instrumentos para melhorar o acesso, a qualidade e a eficiência. A partir da experiência da gastroenterologia, explicou como uma gestão mais próxima da atividade assistencial permite adaptar recursos às necessidades e responder às listas de espera. Referiu que os resultados avaliados no seu contexto de atividade apontaram para uma redução do custo por doente e uma diminuição global de custos próxima de um milhão de euros.

O financiamento das novas terapêuticas esteve no centro da intervenção de Margarida Borges, Principal da IQVIA Portugal. A especialista em avaliação económica distinguiu a relação entre custos e benefícios de um tratamento da capacidade financeira para o disponibilizar a uma população muito alargada. Através de uma simulação económica, ilustrou o potencial de ganhos em saúde a longo prazo, salientando, porém, a necessidade de definir prioridades de acesso com critérios racionais, demonstráveis e verificáveis.

Margarida Borges alertou também para o risco de agravamento das desigualdades quando o acesso depende da capacidade de pagamento dos doentes, num contexto em que a obesidade já está associada a desigualdades sociais.

A discussão final reforçou a importância de organizar os cuidados em torno da pessoa, com equipas transversais e uma ligação consistente à medicina geral e familiar. No encerramento, Paulo Sousa destacou o desafio de aproximar financiadores, médicos e gestores na construção de soluções que assegurem o tratamento e o acompanhamento a longo prazo de uma doença com elevado impacto na sociedade.