CONSELHO CLÍNICO
CONSELHO CLÍNICO

Obesidade exige diagnóstico precoce e acompanhamento ao longo da vida

A obesidade é uma doença crónica complexa que exige uma resposta multidisciplinar, individualizada e continuada. Esta foi a principal mensagem de Daniel Macedo, endocrinologista do Hospital da Luz Lisboa, em dissertação na segunda edição dos Encontros Clínicos da APHP, dedicada ao tema «Obesidade: doença crónica complexa», apresentada por Eduarda Freitas, diretora clínica da Lusíadas Saúde. O evento realizou-se no dia 22 de outubro, no Hospital da Luz Learning Health.

Na sua intervenção, o especialista sublinhou que o reconhecimento da obesidade como doença ainda não se traduz numa resposta adequada, persistindo situações de subdiagnóstico, tratamento insuficiente e estigma. Defendeu, por isso, uma mudança na abordagem clínica e na comunicação com as pessoas, afastando a ideia de que a obesidade resulta apenas de escolhas individuais ou se resolve exclusivamente comendo menos e aumentando a atividade física.

Daniel Macedo explicou que a doença resulta da interação entre predisposição genética e fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais. Os mecanismos que regulam o apetite e a saciedade ajudam também a compreender a tendência para recuperar peso após o emagrecimento, reforçando a necessidade de acompanhamento a longo prazo.

Neste contexto, destacou a importância de avaliar a distribuição da gordura corporal, as complicações e o impacto na vida de cada pessoa, para além do peso e do índice de massa corporal. As consequências da obesidade abrangem múltiplas áreas, incluindo a saúde cardiovascular, osteoarticular, oncológica e mental, o que exige articulação entre diferentes especialidades e profissionais de saúde.

O tratamento deve integrar alimentação, atividade física, apoio psicológico, terapêutica farmacológica e cirurgia bariátrica e metabólica, de acordo com as necessidades e indicações de cada pessoa. Estas opções podem complementar-se em diferentes fases do percurso, devendo ser acompanhadas por objetivos realistas, monitorização de resultados e seguimento continuado.

O endocrinologista salientou que perdas de peso sustentadas de pelo menos 5% já podem trazer benefícios para a saúde. Mais do que atingir um determinado valor na balança, importa reduzir complicações, melhorar a capacidade funcional e proporcionar maior qualidade de vida. «O objetivo do tratamento da obesidade não é perder quilos, mas sim melhorarmos a saúde global da pessoa», afirmou.

A equidade no acesso foi outro dos pontos centrais da intervenção. Embora tenha valorizado o avanço da comparticipação das terapêuticas farmacológicas, Daniel Macedo criticou a sua restrição às Unidades Locais de Saúde com percursos de cuidados integrados implementados, defendendo que as pessoas com obesidade devem ter acesso ao tratamento independentemente do setor em que são acompanhadas.

 

A concluir, apelou à criação de percursos assistenciais bem definidos, à formação dos profissionais e ao reforço do diagnóstico precoce. Combater o estigma e organizar uma resposta integrada são, sustentou, condições essenciais para transformar o reconhecimento da obesidade como doença em melhores cuidados de saúde.