



Mesa 2 | “Resiliência digital em Saúde”
Presidente | Eduarda Reis
Moderadores | Dina Carvalho • David Vieira
Palestrantes | Miguel Gonçalves • Bruno Horta Soares • Sofia Couto Rocha • Leid Zejnilovic
A inteligência artificial (IA), a cibersegurança e a confiança digital estiveram no centro da mesa dois do Fórum Clínico, dedicada ao tema “Resiliência digital em saúde”, que o Conselho Clínico da APHP promoveu a 17 de outubro de 2025. O debate evidenciou um setor em rápida transformação, onde os benefícios da tecnologia coexistem com riscos crescentes e exigem uma resposta estratégica integrada.
Miguel Gonçalves, Chief Information Security Officer (CISO) da CUF Saúde, destacou a dualidade da IA, simultaneamente ferramenta de progresso e vetor de ameaça. Se, por um lado, permite otimizar processos clínicos, apoiar diagnósticos e melhorar a eficiência dos cuidados, por outro está a ser explorada por atacantes para tornar os ciberataques mais massivos e sofisticados. “É mais fácil destruir do que construir”, alertou, sublinhando o desfasamento entre a capacidade ofensiva e a resposta das equipas de defesa.
Neste contexto, o papel do responsável de cibersegurança (CISO) está a evoluir no setor da saúde, tornando-se mais próximo, pedagógico e colaborativo. A aposta passa por sensibilizar diretamente os profissionais no terreno, promovendo comportamentos seguros sem comprometer a usabilidade dos sistemas. O desafio, segundo o especialista, é claro: integrar a segurança de forma invisível e eficaz, sem criar barreiras à prática clínica.
O enquadramento regulamentar, nomeadamente com a diretiva NIS2, veio reforçar a urgência desta transformação, introduzindo níveis de responsabilidade que podem ter impacto direto na sustentabilidade das instituições. A mudança de comportamentos – como a gestão de passwords ou o acesso a dados clínicos – e a preparação para o uso ético da IA são apontadas como prioridades para os próximos anos. Paralelamente, conceitos como autenticação multifator, “zero trust” e ciber higiene tendem a afirmar-se como práticas correntes na cultura organizacional.
Já Bruno Horta Soares, IT Executive Senior Advisor da IDC Portugal, trouxe uma reflexão sobre governança e confiança digital, recorrendo à metáfora do “cargo cult” (ocorrido no final da Segunda Guerra Mundial, quando tribos das ilhas do Pacífico, fascinadas com a chegada de aviões aliados carregados de mantimentos, começaram, após a guerra, a reconstruir em madeira as pistas, as torres de controlo e até os rádios, acreditando que esses gestos fariam regressar os aviões) para alertar contra a adoção superficial de tecnologias. Muitas organizações, referiu, replicam modelos e ferramentas sem compreender os sistemas que lhes dão sentido, confundindo digitalização com progresso.
Para o especialista, a governança assume-se como “a engenharia invisível da liderança”, garantindo a coerência entre estratégia, decisão e execução. Num hospital, este processo materializa-se no alinhamento entre administração, gestão e prática clínica, permitindo não só operar, mas aprender e evoluir continuamente.
A confiança surge, assim, como o principal resultado desta boa governança. Mais do que um valor abstrato, é construída através da capacidade de proteger, explicar e corrigir. Num setor sensível como a saúde, onde a relação entre profissional e utente é central, “a segurança protege a operação, mas é a confiança que protege a relação”.
Sofia Couto Rocha, Head of Innovation & Head of Virtual Client da Lusíadas Saúde e Leid Zejnilovic, Professor Assistente da Nova SBE foram unânimes no reconhecimento da selva digital em que se vive também no domínio da saúde. Se, para a primeira, a informação e os dados são cada vez mais cruciais para a tomada de decisão médica, para o segundo, inúmeros problemas se levantam com o recurso à Inteligência Artificial. A maior responsabilização médica, em virtude do maior registo dos dados; as questões éticas e legais de um diagnóstico com recurso a IA; o agravamento da dependência em relação à IA; a alternativa à IA em contexto de novo apagão; a necessidade de planos de contingência; o modelo determinístico das respostas dos computadores, entre outros, foram alguns dos temas que mereceram reflexão.
A mesa concluiu que a resiliência digital em saúde depende, em última análise, de uma cultura de responsabilidade partilhada – onde tecnologia, pessoas e processos convergem para garantir não apenas eficiência, mas também confiança sustentável.
Síntese das ideias principais
- A imitação sem entendimento é o “cargo cult” da era digital.
- A governança é liderança com instrumentos: avalia, dirige e monitoriza a criação de valor.
- A confiança é o resultado observável da maturidade institucional.
- A segurança protege a operação; a confiança protege a relação.
- A IA responsável exige quatro respostas: propósito, dados, responsabilidade e limites.
- Liderar no digital é governar agentes (humanos e tecnológicos) com propósito e ética.