



Mesa 3 | “Formação, atração e retenção”
Presidente | Paulo Sousa
Moderadores | Rui Pinto • Adriano Rodrigues
Palestrantes | João Eurico da Fonseca • Cristina Caroça • Alexandre Gonçalinho • Miguel Amado
A formação médica, a atração de talento e a retenção de profissionais estiveram em destaque na terceira mesa do Fórum Clínico da APHP, subordinada ao tema “Formação, Atração e Retenção”, que decorreu a 17 de outubro de 2025, em Leiria. O painel reuniu especialistas de diferentes áreas, evidenciando os desafios estruturais e as soluções emergentes para garantir a sustentabilidade dos recursos humanos na saúde.
A sessão teve início com a intervenção de João Eurico Fonseca, do Hospital Santa Maria, que abordou as parcerias da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) com instituições privadas. Numa faculdade com mais de 2.300 alunos e 645 docentes, onde uma parte significativa está ligada ao setor privado, o responsável destacou a colaboração com cerca de dez unidades de saúde privadas para a realização de estágios e ensino prático. Hospitais como Lusíadas Lisboa, CUF Descobertas, CUF Tejo e Hospital da Luz assumem um papel relevante, sobretudo em especialidades com carência no SNS, como ortopedia, ginecologia/obstetrícia ou neurocirurgia. Para o especialista, estas parcerias representam uma resposta eficaz à escassez de recursos no setor público, contribuindo para uma formação mais completa e alinhada com a realidade do sistema de saúde.
Seguiu-se a intervenção de Cristina Caroça, da CUF Saúde, que apresentou a experiência do grupo CUF na formação médica. Anualmente, a rede recebe cerca de 850 alunos em contexto pré-graduado, envolvendo-os em atividades práticas, estágios e simulação clínica. A criação do programa PECLICUF e a aposta no internato médico em contexto privado – com mais de uma década de experiência e mais de 100 estágios realizados – foram tidas como marcos relevantes. Em 2024, a CUF contava com 20 internos em formação em várias especialidades. Entre os fatores de atração, destacou-se a possibilidade de exercer medicina com elevados padrões de qualidade e menor constrangimento estrutural face ao setor público, embora tenham sido identificadas limitações, como menor exposição a doentes crónicos e a contextos de urgência.
A perspetiva regional foi trazida pelo enfermeiro Alexandre Gonçalinho, administrador hospitalar na Madeira, que abordou os desafios de atrair e fixar médicos em regiões periféricas. Sublinhando o impacto do isolamento geográfico, da instabilidade nos transportes e do custo de vida, defendeu uma abordagem integrada que vá além da remuneração, incluindo apoio à habitação, à família e à integração comunitária. Este modelo, segundo o responsável, tem permitido atrair profissionais e até recuperar médicos naturais da região que exerciam fora da ilha.
A mesa terminou com um debate liderado por Miguel Amado, da Ernst & Young, centrado na remuneração médica como fator crítico de retenção. Foi evidenciada a disparidade salarial entre setores público e privado, bem como a diferença de incentivos e produtividade entre organizações. Os participantes alertaram ainda para a crescente saída de profissionais de saúde para o estrangeiro, num contexto europeu competitivo. Entre as soluções discutidas, destacou-se a necessidade de evoluir para modelos de remuneração que valorizem não apenas a produção, mas também a qualidade dos cuidados prestados.
A terceira mesa do Fórum Clínico reforçou a ideia de que a sustentabilidade do sistema de saúde depende cada vez mais de uma abordagem integrada à formação e valorização dos profissionais, onde a colaboração entre setores, a inovação nos modelos formativos e a adequação dos incentivos assumem um papel determinante.
Síntese das ideias principais
- Importância crescente do setor privado e das parcerias na formação, face à escassez no SNS.
- Necessidade de incidência em especialidades com carência (ortopedia, ginecologia/obstetrícia, neurocirurgia, etc.).
- Fatores de atração: melhores condições de prática clínica e menos constrangimentos.
- Atração e retenção em regiões periféricas (Madeira): pacote global (alojamento, apoio familiar, integração).
- Forte concorrência internacional e saída de profissionais para o estrangeiro.
- Necessidade de modelos de pagamento baseados na qualidade e não só na produção.
- Sustentabilidade do sistema depende da valorização dos profissionais.
- Formação, condições de trabalho e incentivos são determinantes para atrair e reter talento.
- Cooperação entre setores e inovação nos modelos formativos são essenciais.